Celebridades instantâneas, bandas que nascem e no dia seguinte vendem milhões de discos, artistas parasitas que vivem a sombra de outros mais famosos. Afinal, quais critérios determinam a validade artística e cultural no Brasil?
É comum fazer uso do termo “cultura” quando se discute grau de instrução ou (pasmem) conhecimentos acadêmicos. O conceito de cultura é empregado de forma errônea e quase sempre tendenciosa. Por que Fulano de Tal, lá dos Cafundós do Brejo, teria cultura? Ou melhor, para que teria? A cultura, entendida por poucos, pode ser encontrada em um conjunto de costumes comum a um povo. Assim, seria possível afirmar que os brasileiros desconsideram sua cultura. Esse é um país de costumes ricos e extremamente particulares, construtores de uma identidade própria. A unidade desse povo, então, é desqualificada quando os costumes de Fulano de Tal, brasileiro, dos Cafundós do Brejo, não são levados em conta. A percepção artística nesse processo fica gravemente prejudicada, visto que não possuir cultura impossiblitará a produção de arte. O descrédito leva a uma supervalorização da cultura do outro, a exemplo do movimento hip hop que toma as grandes cidades brasileiras onde não há uma unidade.
Outro aspecto digno de análise é o fato de artistas de olhos azuis com aparência germânica terem maior êxito no mercado brasileiro. Quem não tem, logo consegue uma lente de contato e, aí sim, pode produzir arte. Parece brincadeira, mas acontece, e é mais comum do que as pessoas possam perceber. Dessa forma, a arte se torna algo distante, pertencente a uma pequena parcela onde se encontram também os letrados. Esses costumam viajar pelo mundo e voltam contaminados da tal cultura, supostamente superior, daí o valor dado a quem já pôs os pés fora do país.
O Fulano de Tal produz peças de cerâmica e as pinta. Ele faz colares de sementes e conta estórias com um incrível poder de construir o lúdico. Espera aí, isso é arte, sim, arte popular genuinamente brasileira. No entanto, todos os parentes e amigos do Fulano podem produzir essa arte, o que significa que sua produção terá pouco valor econômico. Acontece assim com Samba de Roda, esquecido pelos meios de comunicação de massa, supostamente responsáveis por exibir a cultura. Para os brasileiros basta bater palmas e tá pronto, é um samba. Agora basta a roda, ta bonito, é um samba de roda. Pode gostar, é lindo de ver e ouvir. Só que “não vende”. E se “não vende” não serve para ser exibido, portanto, será desconhecido, logo, morrerá.
É assim que funcionam os valores artísticos e culturais de uma sociedade capitalista, onde os produtores de informação visam tão somente o lucro. A superficialidade e o sucesso instantâneo, de curta duração, é a prioridade. Os artistas devem ser deuses reclusos em seu Olimpo, distantes da massa incapaz. Para a elite que domina a política e a mídia brasileira é imprescindível reafirmar a idéia de incapacidade da população. Assim, fica fácil tomá-la como refém, chantageado-a dia após dia, a fim de fazer o que lhe interessa.
sábado, 21 de julho de 2007
domingo, 17 de junho de 2007
O SABOR AMARGO QUE FICA...
Manhã de domingo, uma chuva fina caía sobre Salvador. Como de costume, as pessoas tiraram o casaco do armário para se proteger. Na Avenida Paralela, nas imediações da comunidade do Bairro da Paz, algumas pessoas esperavam em um ponto de ônibus quando a viatura da Polícia Militar, que vinha em alta velocidade estacionou bruscamente. Assustadas, duas crianças se aproximaram da mãe ao ver um policial, com arma em punho, descer do carro. Suas primeiras palavras seriam cruciais para o desenrolar da situação. “Encosta aí negão, encosta aí! Você também. Vamo!”, disse o policial com vocabulário vulgar.
Enquanto seu colega permaneceu ao volante, o policial pediu que uma moça se afastasse e revistou os dois rapazes. A abordagem violenta logo se mostrou desnecessária e os garotos foram liberados. Ao caminhar para o carro, a autoridade notou o olhar assustado das pessoas e resolveu se explicar. Enquanto falava, a tal moça que aparentava vinte e poucos anos, protegida por um guarda-chuva, ia a seu encontro. Com a voz trêmula, o policial repetia: “Houve um assalto ali pra cima e os suspeitos tinham as mesmas características de vocês”. Ele continuava a falar como se estive a pedir desculpas pela abordagem grosseira. Nesse momento, a moça chegou bem perto e lhe interpelou. “O senhor precisava chamá-lo de negão?” perguntou. O diálogo seguiu-se em tom pouco amistoso.
- Eu chamei você de negão, rapaz? Pergunta o policial ao jovem negro.
O rapaz sussurra algo abaixando a cabeça, fazendo-se de desentendido, quando a moça completa. - Chamou sim. Ela tinha uma voz firme e parecia estar calma, o que deixou, ainda, mais intimidado o policial.
- Se chamei me desculpe, não é do meu feitio. Mais uma vez ela o interrompe e pergunta:
- Qual é o seu nome por gentileza? O militar mostrava-se completamente desconcertado nesse momento. Seu rosto apresentava apreensão por saber do erro que cometeu, e imediatamente concluiu:
- Sargento Cunha. Meu nome é Sargento Cunha. Mas, eu não tinha a intenção de ofender. Não é do meu feitio – repetiu, acuado pelas perguntas.
A moça percebeu que os olhares de reprovação lançados sobre o homem já haviam lhe feito refletir sobre a conduta preconceituosa e afastando-se, disse:
- Tudo bem Sargento. Pode ir. Bom trabalho. Ela disse, como se tudo que fosse dito ali não mudaria o fato. Resmungando, o policial seguiu na viatura. Dessa vez, em menor velocidade. O curioso é que ele mesmo era negro.
No ponto, o rapaz revelou que estava indo prestar concurso público. As pessoas pareciam revoltadas com o acontecido. Homens, pagos para proteger o cidadão, impedir o crime, desconheciam a lei, ou pior, aparentavam achá-la desnecessária. Numa conversa, elas chegam à conclusão de que a situação poderia ser bem diferente se não morassem ali, na periferia da cidade, se não fossem negros, se não precisassem esperar por um ônibus. Talvez, se não fossem brasileiros.
O racismo é um câncer que corrói a mente, cega os olhos, e faz o homem esquecer o óbvio: somos iguais do nascer ao morrer, o que nos faz diferentes são as oportunidades.
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."
(Nelson Mandela)
Enquanto seu colega permaneceu ao volante, o policial pediu que uma moça se afastasse e revistou os dois rapazes. A abordagem violenta logo se mostrou desnecessária e os garotos foram liberados. Ao caminhar para o carro, a autoridade notou o olhar assustado das pessoas e resolveu se explicar. Enquanto falava, a tal moça que aparentava vinte e poucos anos, protegida por um guarda-chuva, ia a seu encontro. Com a voz trêmula, o policial repetia: “Houve um assalto ali pra cima e os suspeitos tinham as mesmas características de vocês”. Ele continuava a falar como se estive a pedir desculpas pela abordagem grosseira. Nesse momento, a moça chegou bem perto e lhe interpelou. “O senhor precisava chamá-lo de negão?” perguntou. O diálogo seguiu-se em tom pouco amistoso.
- Eu chamei você de negão, rapaz? Pergunta o policial ao jovem negro.
O rapaz sussurra algo abaixando a cabeça, fazendo-se de desentendido, quando a moça completa. - Chamou sim. Ela tinha uma voz firme e parecia estar calma, o que deixou, ainda, mais intimidado o policial.
- Se chamei me desculpe, não é do meu feitio. Mais uma vez ela o interrompe e pergunta:
- Qual é o seu nome por gentileza? O militar mostrava-se completamente desconcertado nesse momento. Seu rosto apresentava apreensão por saber do erro que cometeu, e imediatamente concluiu:
- Sargento Cunha. Meu nome é Sargento Cunha. Mas, eu não tinha a intenção de ofender. Não é do meu feitio – repetiu, acuado pelas perguntas.
A moça percebeu que os olhares de reprovação lançados sobre o homem já haviam lhe feito refletir sobre a conduta preconceituosa e afastando-se, disse:
- Tudo bem Sargento. Pode ir. Bom trabalho. Ela disse, como se tudo que fosse dito ali não mudaria o fato. Resmungando, o policial seguiu na viatura. Dessa vez, em menor velocidade. O curioso é que ele mesmo era negro.
No ponto, o rapaz revelou que estava indo prestar concurso público. As pessoas pareciam revoltadas com o acontecido. Homens, pagos para proteger o cidadão, impedir o crime, desconheciam a lei, ou pior, aparentavam achá-la desnecessária. Numa conversa, elas chegam à conclusão de que a situação poderia ser bem diferente se não morassem ali, na periferia da cidade, se não fossem negros, se não precisassem esperar por um ônibus. Talvez, se não fossem brasileiros.
O racismo é um câncer que corrói a mente, cega os olhos, e faz o homem esquecer o óbvio: somos iguais do nascer ao morrer, o que nos faz diferentes são as oportunidades.
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."
(Nelson Mandela)
Texto sobre o racismo na Polícia Militar da Bahia
quarta-feira, 18 de abril de 2007
DE ZUMBI A OXÓSSI Crianças aprendem história e cultura afro em sala de aula
- Hoje, quando eu estava vindo pra escola, vi uma macumba.
- Não. Você viu uma oferenda!
Esse diálogo presenciado pela professora fazia parte de uma conversa informal entre dois de seus alunos. Ana Helena dá aulas ao pré II e conta orgulhosa como é comum as crianças reagirem contra desrespeitos a rituais da cultura negra. Elas estudam na Escola Municipal Malê Debalê, que fica no bairro de Itapuã e possui educação infantil, 1ª e 2ª série. A nova postura desses alunos diante da discriminação e do preconceito está sendo possível graças à implementação da lei 10.639, que traz em seu texto diversas alterações a lei 9.394, existente desde 1996. A antiga lei foi criada para incluir a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” no currículo escolar do ensino fundamental e médio, sua principal e mais comemorada mudança foi tornar-se obrigatória.
Para os meninos e meninas do bairro, que entre 1744 e 1764 abrigou o Quilombo Buraco do Tatu, é a oportunidade de conhecer a história de luta e resistência do povo negro. E orgulhar-se e de descender da raça de heróis como Zumbi dos Palmares. “Desmistificar a idéia do negro coitadinho” é de acordo com a coordenadora da instituição, Isabel Passos, um dos objetivos do ensino, que valoriza a identidade cultural. No entanto, adequar as atividades à nova diretriz curricular não foi tarefa das mais fáceis. Isiane Aline da Silva, diretora da unidade de ensino, diz que os professores chegaram a se reunir aos sábados para fazer grupo de estudos.
A formação de educadores é orientada pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), que montou uma pasta com cerca de 10 textos onde os professores podem obter informações sobre o tema. Outro recurso utilizado pela secretaria para a formação dos mestres foi a parceria com os blocos afros, a exemplo do Malê Debalê – a escola de mesmo nome funciona em suas dependências. Segundo o diretor de educação do Bloco e coordenador da Coordenadoria Regional de Educação (CRE) / Itapuã, Carlos Eduardo Santana, a cooperação com a SMEC tem cerca de dois anos e funciona da seguinte forma: “A Prefeitura entra com a infra-estrutura, e o Malê com os formadores”, que no caso são estudiosos que ministram palestra gratuitamente a pedido do Bloco. O último curso teve 60 inscritos. Pedagogo formado pela UNEB, Carlos Eduardo conta ainda que “quem efetivou a lei foram os blocos afros e as militâncias do movimento negro”. Ele cita que o Malê Debalê dá palestras em escolas públicas desde 1999, quando ainda não existia a obrigatoriedade, e que, portanto, o trabalho só foi ampliado.
Reação dos pais - Marlene Souza, 34, notou a abordagem da nova temática quando a escola passou uma atividade para sua filha contendo histórias da cultura afro-brasileira. A mãe, que freqüenta igrejas católicas e evangélicas, diz não ver problema na educação da filha. “Acho bom, porque ela vai aprendendo, conhecendo e respeitando a cultura dos outros”, comenta. Mas ela revela que em casa nem todos pensam assim. A tia de Emili Souza, de 5 anos, filha de Marlene, é Testemunha de Jeová e não concordou com idéia. Segundo Marlene, sua irmã acredita que estão ensinando candomblé às crianças e aconselha mudar a sobrinha de escola. Apesar disso, Emili continua estudando e se comporta como agente multiplicador, contando tudo que aprende para a família e os amigos.
Professoras da escola Malê Debalê, Flaviane Sudário, afirma ter cuidado para não incentivar o culto. Procurada por alguns pais, ela deixou claro que “não estava ensinando religião e sim cultura, em termo de conhecimento histórico, para desconstruir o preconceito que há”, concluiu. Assim, a fórmula encontrada pelos educadores para seguir as diretrizes curriculares exigidas foi unir a cultura afro-brasileira e africana ao meio ambiente, revelando a ponte existente entre os orixás e a natureza. Dessa forma, os alunos aprendem a preservar o meio ambiente conhecendo a mitologia africana, na qual Oxum, rainha das águas doces, representa a fertilidade da vida. Outra maneira foi usar a simbologia das cores que representam os orixás, verde para Oxóssi, branco para Oxalá, descreve Flaviane.
Uma mostra do aprendizado foi dada durante o Desfile da Primavera 2006, que teve a participação efetiva dos pais e da comunidade. Além desse, a peça teatral chamada “Três Reinos e uma Nação” que contou a história das três raças que construíram o Brasil, e um concurso de redação com a temática “Água e Zumbi”, completaram o ciclo de atividades produzidas a partir dos conhecimentos adquiridos. “Foi um ano em que aprendemos como adotar a lei sem ser agressivo para as crianças”, resume a diretora da instituição.
O trabalho desenvolvido por professores e alunos tem gerado bons frutos. Recentemente, a escola recebeu a visita de representantes do Ministério do Meio Ambiente de Angola e do Brasil. O coordenador de educação do bloco relata que eles vieram conhecer a forma criativa usada para ensinar Educação Ambiental às crianças. Recebidos com música e dança, puderam perceber a alegria dos alunos em demonstrar o que aprenderam.
Educação e conscientização - A escola Malê Debalê foi fundada há um ano e aguarda a construção de sua sede própria, pois ainda funciona nas dependências do bloco, inclusive o letreiro com seu nome tem causado transtornos. Por ficar na fachada principal acaba confundido o visitante de primeira viagem, que se pergunta: Aqui é a escola e onde fica o bloco? A previsão é que as obras sejam iniciadas ainda este ano, num terreno ao lado. Mas, isso não é um grande problema, afirma Carlos Eduardo, que deixa claro o compromisso da entidade com a educação. “O ensino afro é o principal meio de compor os temas carnavalescos do Malê, que consegue assim conscientizar a comunidade quanto ao seu papel social”, completa.
A relevância do aprendizado da cultura e história afro é lembrada também pela educadora baiana Vanda Machado. Doutora em educação, ela pesquisa o tema há 23 anos. Em seu texto “Intolerância religiosa: vigiando e punindo” apresentado no Seminário “Racismo, Xenofobia e Intolerância”, em Salvador no ano 2000, Vanda conclui que só através da educação os brasileiros se tornarão cidadãos conscientes de sua formação cultural e respeitadores dela. O que pode influir tanto na sua alto estima, quanto no convívio em sociedade.
- Não. Você viu uma oferenda!
Esse diálogo presenciado pela professora fazia parte de uma conversa informal entre dois de seus alunos. Ana Helena dá aulas ao pré II e conta orgulhosa como é comum as crianças reagirem contra desrespeitos a rituais da cultura negra. Elas estudam na Escola Municipal Malê Debalê, que fica no bairro de Itapuã e possui educação infantil, 1ª e 2ª série. A nova postura desses alunos diante da discriminação e do preconceito está sendo possível graças à implementação da lei 10.639, que traz em seu texto diversas alterações a lei 9.394, existente desde 1996. A antiga lei foi criada para incluir a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” no currículo escolar do ensino fundamental e médio, sua principal e mais comemorada mudança foi tornar-se obrigatória.
Para os meninos e meninas do bairro, que entre 1744 e 1764 abrigou o Quilombo Buraco do Tatu, é a oportunidade de conhecer a história de luta e resistência do povo negro. E orgulhar-se e de descender da raça de heróis como Zumbi dos Palmares. “Desmistificar a idéia do negro coitadinho” é de acordo com a coordenadora da instituição, Isabel Passos, um dos objetivos do ensino, que valoriza a identidade cultural. No entanto, adequar as atividades à nova diretriz curricular não foi tarefa das mais fáceis. Isiane Aline da Silva, diretora da unidade de ensino, diz que os professores chegaram a se reunir aos sábados para fazer grupo de estudos.
A formação de educadores é orientada pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), que montou uma pasta com cerca de 10 textos onde os professores podem obter informações sobre o tema. Outro recurso utilizado pela secretaria para a formação dos mestres foi a parceria com os blocos afros, a exemplo do Malê Debalê – a escola de mesmo nome funciona em suas dependências. Segundo o diretor de educação do Bloco e coordenador da Coordenadoria Regional de Educação (CRE) / Itapuã, Carlos Eduardo Santana, a cooperação com a SMEC tem cerca de dois anos e funciona da seguinte forma: “A Prefeitura entra com a infra-estrutura, e o Malê com os formadores”, que no caso são estudiosos que ministram palestra gratuitamente a pedido do Bloco. O último curso teve 60 inscritos. Pedagogo formado pela UNEB, Carlos Eduardo conta ainda que “quem efetivou a lei foram os blocos afros e as militâncias do movimento negro”. Ele cita que o Malê Debalê dá palestras em escolas públicas desde 1999, quando ainda não existia a obrigatoriedade, e que, portanto, o trabalho só foi ampliado.
Reação dos pais - Marlene Souza, 34, notou a abordagem da nova temática quando a escola passou uma atividade para sua filha contendo histórias da cultura afro-brasileira. A mãe, que freqüenta igrejas católicas e evangélicas, diz não ver problema na educação da filha. “Acho bom, porque ela vai aprendendo, conhecendo e respeitando a cultura dos outros”, comenta. Mas ela revela que em casa nem todos pensam assim. A tia de Emili Souza, de 5 anos, filha de Marlene, é Testemunha de Jeová e não concordou com idéia. Segundo Marlene, sua irmã acredita que estão ensinando candomblé às crianças e aconselha mudar a sobrinha de escola. Apesar disso, Emili continua estudando e se comporta como agente multiplicador, contando tudo que aprende para a família e os amigos.
Professoras da escola Malê Debalê, Flaviane Sudário, afirma ter cuidado para não incentivar o culto. Procurada por alguns pais, ela deixou claro que “não estava ensinando religião e sim cultura, em termo de conhecimento histórico, para desconstruir o preconceito que há”, concluiu. Assim, a fórmula encontrada pelos educadores para seguir as diretrizes curriculares exigidas foi unir a cultura afro-brasileira e africana ao meio ambiente, revelando a ponte existente entre os orixás e a natureza. Dessa forma, os alunos aprendem a preservar o meio ambiente conhecendo a mitologia africana, na qual Oxum, rainha das águas doces, representa a fertilidade da vida. Outra maneira foi usar a simbologia das cores que representam os orixás, verde para Oxóssi, branco para Oxalá, descreve Flaviane.
Uma mostra do aprendizado foi dada durante o Desfile da Primavera 2006, que teve a participação efetiva dos pais e da comunidade. Além desse, a peça teatral chamada “Três Reinos e uma Nação” que contou a história das três raças que construíram o Brasil, e um concurso de redação com a temática “Água e Zumbi”, completaram o ciclo de atividades produzidas a partir dos conhecimentos adquiridos. “Foi um ano em que aprendemos como adotar a lei sem ser agressivo para as crianças”, resume a diretora da instituição.
O trabalho desenvolvido por professores e alunos tem gerado bons frutos. Recentemente, a escola recebeu a visita de representantes do Ministério do Meio Ambiente de Angola e do Brasil. O coordenador de educação do bloco relata que eles vieram conhecer a forma criativa usada para ensinar Educação Ambiental às crianças. Recebidos com música e dança, puderam perceber a alegria dos alunos em demonstrar o que aprenderam.
Educação e conscientização - A escola Malê Debalê foi fundada há um ano e aguarda a construção de sua sede própria, pois ainda funciona nas dependências do bloco, inclusive o letreiro com seu nome tem causado transtornos. Por ficar na fachada principal acaba confundido o visitante de primeira viagem, que se pergunta: Aqui é a escola e onde fica o bloco? A previsão é que as obras sejam iniciadas ainda este ano, num terreno ao lado. Mas, isso não é um grande problema, afirma Carlos Eduardo, que deixa claro o compromisso da entidade com a educação. “O ensino afro é o principal meio de compor os temas carnavalescos do Malê, que consegue assim conscientizar a comunidade quanto ao seu papel social”, completa.
A relevância do aprendizado da cultura e história afro é lembrada também pela educadora baiana Vanda Machado. Doutora em educação, ela pesquisa o tema há 23 anos. Em seu texto “Intolerância religiosa: vigiando e punindo” apresentado no Seminário “Racismo, Xenofobia e Intolerância”, em Salvador no ano 2000, Vanda conclui que só através da educação os brasileiros se tornarão cidadãos conscientes de sua formação cultural e respeitadores dela. O que pode influir tanto na sua alto estima, quanto no convívio em sociedade.
FATO INUSITADO MARCOU O DOMINGO DE CARNAVAL NA AVENIDA
Domingo de Carnaval na Praça do Povo. Era dia de ver as grandes estrelas da música baiana. A chuva que caía não impediu que logo no comecinho da tarde uma multidão se aglomerasse. O comentário mais comum era anunciado aos gritos “quero ver o Chicletão passar”. Depois de blocos infantis e Afros chegou à vez dos grandes nomes da música baiana. O cacique Ninha arrastou o Tribahia acompanhado de Xexéu e Patrícia, dançando sem parar a atriz global Lucy Ramos - convidada do grupo - distribuía sorrisos e beijinhos aos foliões. Em seguida a musa do Axé, Ivete Sangalo, passou rasgando elogios à pipoca que se espremia para ver a deusa em traje de vedete dos anos 40. Com um bom humor inconfundível a cantora retribuía com música o carinho recebido dos fãs, que seguravam cartazes e acenavam das janelas de prédios. Mas, o inusitado ainda estava por vir.
Era a vez do “Chicletão passar”. De longe se ouvia Bel Marques pedir cuidado aos foliões para que não se machucassem ao seguir o trio. O perigo era que eles fossem esmagados ao passar ao lado dos praticáveis montados pela PM. Ao entrar na Praça a banda parecia contagiada pela multidão, no entanto, problemas no trio, logo tiraram o brilho da festa. Uma fumaça preta de cheiro forte se espalhou pelo ambiente. Nesse momento o cantor que se encontrava num braço mecânico – usado pra deixá-lo mais próximo do público - tentava desesperadamente retornar ao caminhão. O nervosismo tomou conta dos que assistiam a cena. Dos camarotes flashs das câmeras fotográficas demonstravam o espanto das pessoas ao presenciar esse momento raro. Depois de alguns minutos parado, o show continuou. O cantor, desconcertado, pediu desculpas e voltou a tocar e alegrar a multidão.
Era a vez do “Chicletão passar”. De longe se ouvia Bel Marques pedir cuidado aos foliões para que não se machucassem ao seguir o trio. O perigo era que eles fossem esmagados ao passar ao lado dos praticáveis montados pela PM. Ao entrar na Praça a banda parecia contagiada pela multidão, no entanto, problemas no trio, logo tiraram o brilho da festa. Uma fumaça preta de cheiro forte se espalhou pelo ambiente. Nesse momento o cantor que se encontrava num braço mecânico – usado pra deixá-lo mais próximo do público - tentava desesperadamente retornar ao caminhão. O nervosismo tomou conta dos que assistiam a cena. Dos camarotes flashs das câmeras fotográficas demonstravam o espanto das pessoas ao presenciar esse momento raro. Depois de alguns minutos parado, o show continuou. O cantor, desconcertado, pediu desculpas e voltou a tocar e alegrar a multidão.
Após algum tempo da partida do Camaleão o Corpo de Bombeiros apareceu. Fora de hora, os soldados percebem que o problema já havia sido resolvido e recuaram. Seguiu-se a festa na Castro Alves...
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